Prelúdio


Depois de mais de 30 anos a andar em motas (com algumas interrupções, vá...) decidi mudar para um "Coiso" com mais uma roda.

Não lhe chamo mota porque isso iria ferir a susceptibilidade dos mais puristas mas, também, porque efectivamente não o é.
O termo certo é triciclo invertido... Invertido porque o eixo de duas rodas está à frente e não atrás. Diga-se de passagem, como na verdade faz sentido ser.

Durante o meu tempo de duas rodas fiz umas coisas giras na companhia de bons amigos - Pirenéus, Alpes, Grossglockner, Stélvio, Sahara entre outros - como tal, tenho alguns quilómetros no pêlo que creio me dão um bom entendimento sobre o que é e não é andar de mota.

Tiger 800XCx MY2016 mirando o Stélvio

A decisão não foi tomada de ânimo leve. Habitualmente não sou um tipo que age por impulso, sem estar bem informado.

Nos passados 7 anos tenho andado de Triumph Tiger XCx 800, uma trail europeia fantástica que me encheu as medidas. Gostei tanto que troquei o primeiro modelo de 2011 por outro de 2016 (nova geração actualizada).
A Tiger é realmente uma máquina divinal, desde os acabamentos ao seu motor vigoroso e elástico. Adorei a mota que para a mim continua a ser uma referência.

Tiger 800XCx MY2011 nos Pirenéus

Mas os anos passam, ganha-se "juízo" e repensam-se riscos... Também durante todos estes anos fiquei a dever uma série de viagens a dois à minha cara-metade.
A minha vida de motociclismo foi feita 99% do tempo a solo, que era como gostava de andar com a Tiger.
A dois nunca me senti confortável. A mudança na dinâmica da mota ("problema" transversal às duas rodas) que combinada com a responsabilidade de levar a vida de uma pessoa muito próxima, fazia-me evitar andar com passageiro.

Foi aí que procurei opções mais capazes para viajar a dois. Depois de considerar o que havia no mercado de duas rodas, foquei-me na RT proposta pela BMW. Mas cheguei à conclusão que este grande cruzador cheio de conforto e electrónica sofre dos mesmos males. Um bicho bem pesado (mais ainda que a Tiger), curiosamente com uma altura de banco significativa que a torna ainda mais difícil de manobrar. Então, já não sei bem como, lembrei-me da Spyder. Na verdade em toda a minha vida devo ter visto duas ou três, há vários anos. Aquele conceito de duas rodas à frente merecia ser visto.

vídeo promocional Can-Am Spyder F3-S MY2017

Fui à procura de concessionários... Não estava fácil. A representação de Lisboa parece que tinha fechado e o concessionário mais próximo estava a 100kms de Lisboa.

Mais outra ainda... O importador está sedeado no Norte e modelos para experimentar só por lá, em Matosinhos... Fazer 800kms para um teste-drive não estava nos meus planos e comprar por catálogo também não.

De maneira que mandei um mail a pedir que me avisassem quando estivessem disponíveis Spyders para teste no concessionário mais próximo e sosseguei...

Até ao dia que resolvi passar pelo concessionário de Rio Maior para avaliarem a retoma da Tiger... E a partir daí tudo se precipitou. O valor de retoma estava dentro das minhas expectativas e sobre isso acrescia mais um desconto considerável nos acessórios.

Já levava quatro meses de "investigação" sobre a Spyder. Durante esse tempo "papei" os fóruns, blogs e vídeos todos no YouTube. Em teoria, sabia tudo. Faltava-me só a prática. Por esta altura, face a uma proposta razoável, decidi atirar-me de cabeça e nem esperar pelas unidades de test-drive que iam chegar em Setembro.
E pronto, fui lá no Sábado seguinte e encomendei uma Spyder F3-S... Sem nunca ter andado numa ou sequer ter visto (este modelo mais recente, a F3) ao vivo e a cores.

A actual linha de produtos Spyder divide-se essencialmente em duas famílias num total de seis modelos.

A família F3 corresponde à geração nova de Spyders (lançada em 2015) e subdivide-se em F3 (base), F3-S (Sport), F3-T (Touring) e F3-T LTD (Touring Limited).

A família RT compõe-se pelos modelos RT e RT LTD (Limited) e são essencialmente versões preparadas para grande turismo (grandes carenagens e malas integradas).

Estive indeciso entre os modelos F3-S e F3-T.

Mas depois optei pela S por questões estéticas (look bobberista da traseira) e pelo facto das malas integradas da T serem muito pequenas e não permitirem sequer lá guardar um capacete.

vídeo promocional Can-Am Spyder F3-S MY2018

As malas opcionais oferecidas para a S (feitas em cooperação com a SHAD) são amovíveis, integram-se perfeitamente na estética da F3 e o mais importante: são de 36 litros cada permitindo enfiar perfeitamente em cada uma um capacete modular grande.
Para além disso montei um vidro dianteiro (de série na T), um generoso encosto amovível para o passageiro e uns punhos aquecidos.

E com isto fiquei ainda bastante aquém dos 3000€ de diferença entre o modelo S e T.

É claro que o T traz mais umas coisitas (rádio, instrumentação em painel 16:9 e peseiras largas), mas nenhuma que considerasse interessante para mim.

Das três cores disponíveis (azul, amarelo e preto) a cor escolhida foi o "Black Monolith Satin", que corresponde a um preto "fosco" (ou acetinado). Na verdade é maioritariamente "fosco" pois, na verdade, é composta por uma mistura de painéis preto fosco e preto brilhante. É a minha primeira mota preta, sendo que inicialmente estava mais inclinado para o azul metalizado. Mas parece que tudo o que não seja motas pretas, cinzentas ou brancas, valem menos, depois, em retoma. E eu não me importo que seja preta, até gosto. Este preto "fosco" dá-lhe um ar ainda mais forte, o que já me proporcionou na rua comentários dos mais novos do tipo: "Papá, vai ali a mota do Batman!"...

E, por falar nisso, outra coisa a que tive de me habituar foi precisamente ser o centro das atenções por onde passo. A Spyder dá incrivelmente nas vistas (especialmente aos mais novos e mais velhos). Provavelmente por serem raras em Portugal e talvez também pelo design ser tão marcante... As reacções dividem-se entre virar a cabeça por curiosidade, esboçar um largo sorriso e fazer uma grande festa apitando ou acenando... No geral, poucos são os que ficam indiferentes.